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» Tecnologia nos trilhos

Um carro da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) percorreu um trajeto correspondente a 10 mil quilômetros de ferrovias. Nas localidades onde se concentram os trabalhadores que operam os vagões, o carro parava. Dele saía um grupo de teatro que encenava uma peça e distribuía camisetas e panfletos da Caravana Vale. A peça contava a história de como seria a unificação dos sistemas de informação das três ferrovias que transportam a produção da maior empresa de mineração das Américas. Desde 2005 até agosto deste ano, 3 mil funcionários da Vale foram treinados para operar os vagões de uma nova forma, de acordo com um novo modelo de gestão de logística, em um projeto batizado de Unilog. "Cada ferrovia operava com um sistema diferente, o que dificultava o planejamento e o controle da manutenção dos vagões", diz Adriana Peixoto Ferreira, diretora de TI da Companhia Vale do Rio Doce. O trabalho não foi fácil. São no total 60 mil os vagões da Ferrovia Centro Atlântica (FCA), Estrada de Ferro Carajás (EFC) e Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM).

O projeto Unilog, orçado em 18 milhões de reais, tinha a missão de padronizar os sistemas e as práticas de gestão das três ferrovias para permitir o planejamento integrado do transporte. Era preciso acompanhar uma entrega de ponta a ponta, ainda que houvesse intercâmbio entre vias, com detalhes das demandas dos clientes, capacidade de transporte da ferrovia e monitoramento da operação em tempo real. A solução tecnológica escolhida foi um misto de sistema de mercado e desenvolvimento interno. Dentre oito ferramentas avaliadas pela companhia, em meados de 2004, a que melhor atendeu aos 200 requisitos técnicos e de negócio foi a Translogic, da Engesis, já usada pela empresa de logística América Latina Logística (ALL). Embora adequada, a solução serviu apenas como base, pois precisou ser customizada ao extremo, ao ponto de a Vale rebatizá-la de Unilog Ferrovia. A implementação deveria ocorrer com contingência de infra-estrutura e em um prazo curto de tempo, para não causar parada nas linhas dos trens, por problemas técnicos ou por dificuldade de uso. "A preocupação com a gestão de mudança foi um fator crítico para o sucesso do projeto", diz Adriana.

Virada a frio

A Caravana Vale foi organizada para preparar o clima e sanar as dúvidas antes da migração. Segundo Marcelo Coelho dos Santos, gestor de projetos de TI da Vale, o intervalo disponível para a troca de sistema em cada ferrovia era de seis horas, do contrário corria-se o risco de afetar a produção. Não haveria tempo para ajustes ou perguntas. Por isso, a equipe do Unilog pensou numa etapa intermediária, de simulação. "Foi o que chamamos de virada a frio", diz Santos. Essa etapa envolveu oito gerências, que colocaram seus sistemas rodando em paralelo, o novo e o antigo, para comparar telas e procedimentos, por alguns dias e em todos os turnos, já que as ferrovias trabalham 24 horas por dia. "Com a simulação pudemos treinar todos que seriam impactados pela implantação antes do dia D e, assim, garantir perda zero de produção", afirma Santos.

O Unilog começou a funcionar em fevereiro de 2005, quando a primeira leva de usuários foi treinada na FCA. A virada também ocorreu em fevereiro. No mês passado, a operação de Carajás foi integrada ao sistema e parte da estrada Vitória a Minas.

A gestão unificada das ferrovias tem também o objetivo de evitar compras de novas locomotivas, agora que o planejamento integrado permite maiores ganhos de produtividade. As informações sobre as ferrovias e os vagões estão conectadas a outros 30 sistemas, entre os quais suprimentos, otimização de logística, controle de portos e de minas, contas a pagar e alguns módulos do sistema de ERP. "A contribuição da tecnologia foi tirar a visão meramente operacional das ferrovias e torná-la totalmente estratégica", afirma Alexandre Pereira, gerente-geral de projetos da Companhia Vale do Rio Doce.

Revista INFO CORPORATE - Edição 36
POR Luana Pavani > FOTO EDUARDO MONTEIRO